Quando eu saí da sala de ultrassom em choque por descobrir, confirmar, enfim, por estar grávida, o Fá me esperava na sala.
Ele lia uma revista e não parecia estar preocupado.
Quando eu disse a ele que tinha alguém dentro do meu útero, ele me abraçou e riu e chorou. Ao mesmo tempo.
Depois, ele passou para a fase do choque, como eu.
E alternou essa fase com a do desespero.
A do medo.
A da preocupação.
A da euforia.
Logo no começo, era possível ouvi-lo murmurando nesses diferentes tons e contextos "eu vou ser pai!".
Ele também protagonizou a cena macho alfa. Acho que foi na esteira rolante que liga a estação Paulista à estação Consolação do Metrô.
"Eu sou foda. Eu sou o macho alfa. Eu fecundei a minha fêmea".
Juro. Com essas palavras. Com direito a bater no peito e tudo.
Mesmo no auge do seu orgulho viril, no entanto, ele é um homem enfrentando uma realidade diferente e apavorante: a da paternidade.
E paternidade é uma coisa muito mais abstrata que maternidade.
E homens, em geral, têm problemas com abstratos e subjetivos.
O bebê não está no corpo deles. Nós dizemos "estou grávida", eles nos olham e vêem a mesma pessoa de 3 minutos antes.
Nós reclamamos de enjôos, dores de barriga, nas costas, cansaço, calor, frio, inchaço, fome, vontade de fazer xixi, carência, etc... e, apesar dessas coisas estarem relacionadas, supostamente, ao tal do filho deles, eles não sentem nada disso. Pelo menos não a maioria.
Os meses passam e o bebê cresce, nossa barriga também. A deles, só se for de chope e alimentação ruim.
O bebê mexe... e eles só vão sentir muito depois.
A paternidade é abstrata. Até o nascimento do bebê. Ou até imediatamente após.
A maternidade, não. É concreta, concretíssima. Desde o primeiro momento.
Toda vez que ganhamos alguma coisa para o bebê, o Fá faz uma careta. É o bebê ficando concreto.
É mais do que isso. É o medo. O mesmo que nós, futuras mães, temos. O de não dar conta, de não ser suficiente, de falhar. Da responsabilidade.
Ele tem medo de não ser capaz.
E um certo estranhamento por essa pessoa na qual vem se metamorfoseando a companheira dele.
Uma barriga de esquistossomose estalando no corpo magro da fêmea dele. O cansaço. A impaciência. A fome.
O que fazer com essa criatura nova?
Ele faz o que pode: ele ama. Tem paciência. Alimenta. Muitas e várias vezes. Às vezes faz massagem nos pés. Cede o espaço na cama. E os travesseiros.
Faz que não vê aqueles dias em que ela está obcecada com a maternidade, ou mais especificamente, em descobrir como são as mães, o que elas comem e como elas surgem.
Aguenta as sugestões de nome que irrompem no meio de qualquer conversa. Inclusive sobre o escândalo na Petrobrás.
Ouve os relatos, os mil relatos dos sonhos estranhos. E até comenta.
Tenta entender as conversas sobre parto. Assiste o documentário sobre violência obstétrica que a namorada quer por que quer que ele veja.
Acompanha as informações sobre a evolução da gestação. "Agora, ele tá do tamanho de uma azeitona". "Ei, já tem cabelo".
Toda a semana, ele tira uma foto da mulher grávida. Para a posteridade. Para que ela se veja, de alguma forma, nessa casa sem espelho, e se reconheça nessa nova pessoa.
Nesse meio tempo, ele se afeiçoa. À barriga. Ao filho que vai dentro dela. Ainda que ele ainda não tenha nome e seja, ainda, muito abstrato.
Ele conversa. Dá conselho. Ou, simplesmente, o acaricia, o beija.
Ele faz, até, uma promessa.
Ele vira pai. Já é. E nem sabe.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirmuito bom.......quando a criança tiver aprendido a ler aos 30 anos ela vai adorar saber as coisas que a mãe escrevia.....
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