Meu tio Devaldo olhou pra mim e disse "xi, daí não sai nada não".
Ele estava se referindo à minha capacidade de procriar.
Foi com esse pensamento que o "amanhã" chegou e eu fiz xixi no potinho, de novo.
Dessa vez, resolvi acompanhar o procedimento.
Mal mergulhei o palitinho no primeiro xixi matinal e ele acendeu em rosa.
Dois segundos depois, lá estavam os dois pauzinhos gritando GRÁVIDA na mesma intensidade, para não deixar dúvidas.
Mas, ainda faltavam 4 minutos e 58 segundos para o resultado do exame ser seguro.
E eu passei todo esse tempo rezando um único mantra, os olhos fixos nos pauzinhos: "JUNTA, JUNTA, JUNTA".
Nunca fui muito boa em orações. Ou em mantras.
Do lado de fora, o Fá aguardava.
Saí do banheiro segurando o palitinho mostrando os dois pauzinhos rosas com cara de quem acabou de presenciar um massacre de filhotes fofinhos.
"Tá dizendo que eu tô grávida!"
Ele tirou o palitinho da minha mão, virou, revirou. Pegou a caixinha do exame para se certificar das instruções e resultados.
Tirando isso, ele não parecia nem um pouco incomodado.
"Bom, amor, então você está grávida". Assim, como quem diz "então, seu cabelo é castanho".
"Não tô, não. Ó, diz aí na caixinha que infecção urinária pode alterar o resultado".
Ele olha pra mim. Dúvida (da minha sanidade mental, talvez), esperança, confusão. E aí, você tá ou não tá, ele pergunta.
"Não estou. Quer saber? Vou fazer um BhCG no laboratório aqui embaixo e acabar com isso".
"Um o quê?". Homens! Explico do que se trata. É um hormônio que diz que você está grávida.
Ele tem reunião cedo e não pode ir comigo. Sem drama. Não será a primeira, nem a última vez na história da humanidade que uma mulher vai sozinha tentar saber se está grávida.
Dia 26 de dezembro. O laboratório está às moscas, às oito e meia da manhã. Peço o exame, pago.
Dois minutos depois alguém me chama.
Prende um elástico no meu braço, num procedimento que sempre me lembra aplicação de drogas injetáveis, embora eu nunca as tenha usado. Geração Hollywood. Filmes demais.
"Você vai sentir uma picadinha de leve".
Normalmente, depois dessa frase, eu viro o rosto. A agulha entrando na minha pele sempre me deu aflição.
Mas, dessa vez, fico olhando atentamente. Quero ter certeza que tudo foi feito muito corretamente.
O sangue, bem mais bordô do que vermelho, enche o pote.
Enquanto ela etiqueta com o meu nome, eu quero saber se há possibilidade do resultado - especialmente o de gravidez - estar errado.
Ela olha para mim como se eu tivesse acabado de me revelar um ET.
"Moça, se der positivo e você não estiver grávida é porque tem alguma coisa muito errada com você".
Eu saio dali pensando se esse "muito errado" seria "muito ruim" também. Estou quase disposta a descobrir.
Mas, preciso esperar 12 horas para isso.
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