Só fiquei chocada.
Eu, que nunca quis filhos, estava grávida.
Meu cérebro estava com problemas para processar a ideia.
Eu precisava falar em voz alta. Contar para alguém.
Por isso, quando chegamos em casa, eu contei para a Ana.
Santa Ana. Santa Ana Rita.
Ana foi uma espécie de babá de todos nós, lá em casa. Tinha 16 anos quando meus pais a contrataram como doméstica. Limpar a casa e dar uma mão com a criançada.
Eu tinha 6.
Foi amor à primeira vista.
Era para ela que eu contava minhas aventuras do dia. As desventuras, tudo.
Ela sabe de tudo da minha vida. Provavelmente, de coisas que eu nem sei.
Foi para ela que eu contei primeiro.
"Ana, você vai ser vó".
Ela me olhou. Um instante em dúvida. E então começou a chorar e a pular e nos abraçou.
Ela ficou feliz. Isso me confortou um pouco. Ela não correr em pânico pelo fato de eu, totalmente inábil para a maternidade, estar prenha.
Pedi que ela não contasse nada a minha mãe.
A gente contaria no Ano Novo. Ou, sabe deus...
Era muita coisa para processar. Um bebê. Um filho. Uma pessoa que não só cresceria dentro de mim, como dependeria de mim, e do Fá, por muito tempo ainda.
Alguém com quem você não corta os laços. Alguém que vai ser sempre uma parte sua.
Alguém que vai ser uma espécie de continuação sua, embora totalmente diferente de você. Com outra vida.
Alguém frágil nesse mundo louco.
Alguém que tiraria minhas noites de sono, minhas manhãs até tarde e sabe-se lá o que mais.
De repente, me senti muito nova para ter um filho.
Quis gritar: "ei, só tenho 36! Não sei de nada". E aí me senti muito velha para ter um filho.
Em nenhum momento me senti mãe.
Ah, sim. Eu estava mesmo com infecção urinária.
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