quinta-feira, 20 de março de 2014

Por esses dias, já quase na metade da gravidez, assisti um vídeo (desses do youtube) sobre formas fofinhas e impactantes de contar à família que se está grávida.

Coisas como colocar sapatinhos de bebê em caixas de presentes para as avós; perguntar ao sogro se ele prefere ser chamado de sogrão ou de vovô; dar um cartão de "feliz dia das avós"... e por aí vai.

Não tivemos nenhuma idéia (sim, eu sou contra o acordo ortográfico) do gênero. Mas, como estávamos às vésperas do Ano Novo, resolvemos aguardar até lá para contar a novidade.

Entre o dia da descoberta, digo, confirmação da gravidez (27/12) e o Ano Novo, tínhamos longos 4 dias pela frente. E uma viagem de carro de 14 horas até Florianópolis. Com minha mãe e irmã como passageiras. 

E eu, claro. Grávida e com infecção urinária. 

E o Fá. Pai, ainda sob os primeiros impactos da notícia. Fazendo todas as curvas do caminho a 10 por hora. Tentando sacolejar o mínimo possível. E tendo que parar em todos os postos de gasolina da estrada para a moça aqui fazer xixi.

Queria dizer que foi divertido... não foi. Pelo menos não enjoei. E a infecção urinária serviu como desculpa perfeita para o meu descontrole urinário.

E para a minha abstinência alcóolica. Embora minha irmã tenha duvidado que eu fosse ficar sem beber "até no Ano Novo". 

Para a leseira que me acometeu assim que chegamos em Floripa, a desculpa foi o calor. Minha pressão é normalmente baixa (9X6). Sempre fico meio mole na praia... e com esse calor todo... 

Para o espanto da minha irmã "nossa! Como você tá peituda!", eu murmurei um "ah... eu tô pra menstruar..." e desconversei.

O Fá eventualmente tinha ondas de euforia paternal alcóolica e soltava um "você está carregando meu herdeiro" ou "a mãe do meu filho" ou qualquer coisa do gênero. Porque realmente os bêbados devem ter alguma proteção sagrada, ninguém - pelo menos não sóbrio o suficiente para entender - percebeu nada.

Enfim, o Ano Novo chegou.

Fomos à praia. 

Um pouco antes da meia noite, meu irmão, que ficou em Sampa ligou. Afastei-me da galera para falar com ele. 

Congratulações de praxe... e, enfim, vamos a ela. A notícia.

"Então, se cuida bem esse ano... vou precisar de você para cuidar do bebê. Você vai ser tio!"

Silêncio do outro lado da linha. E então: "tio?! A Ju está grávida?"

Isso resume um pouco a expectativa da família em relação à possibilidade de eu procriar, não? 

"Não. Eu estou grávida."

"Sério?! Sério mesmo?"

"Sim, sério. Estou grávida. Dois meses. Deve nascer perto do seu aniversário".

Silêncio, de novo. E um abrupto: "Vou ser tio? Cara, preciso pensar a respeito". E eu fiquei ouvindo o tu-tu-tu da ligação interrompida.

É. Não fomos os únicos a entrar em choque.

A segunda foi minha sogra. Ela estava bem adoentada na época e tomando remédios fortíssimos. 

Estava meio grogue ao telefone. Respondeu com um "É? Agora você tem que tomar juízo, Fábio". Ficamos na dúvida se era uma recomendação para o ano novo. Ou para o futuro pai.

E, então, só restavam os presentes. Por coincidência, minha irmã, mãe e cunhado estavam reunidos numa espécie de círculo. O Fá e eu nos aproximamos e paramos quietos, entre eles. Minha mãe perguntou o que tinha acontecido.

"Nada. Só vim aqui dizer que estou grávida". 

Acho que eu não tinha bem terminado a frase e minha mãe estava gritando e pulando sobre mim; minha irmã estava chorando e meu cunhado estava tendo uma trip particular com a notícia + o álcool da noite (ele parecia estar se divertindo).

Fiquei na dúvida se abraçava minha mãe, ou amparava minha irmã. Na verdade, fiquei preocupada. Por que ela estava chorando, afinal? Meio soluçando, ela explicou que era de felicidade.

"Eu vou ser tiiiiiiiiiaaaaaa".

De fato, não há nada demais nesse relato. Uma família partilhando uma notícia feliz. Tão emocionante, tocante e um pouco chocante quanto isso.

Mas, essa notícia em si tinha também um outro contexto.

Um contexto de perda e de ganho. O ano novo marcava pouco mais de um ano da morte do meu pai. 

O primeiro ano novo que conseguimos passar mais ou menos inteiros, depois disso. Sem a mágoa e os conflitos próprios que uma perda como essa traz. Sem acusações baseadas na dor.

Para usar as palavras da minha mãe, um renascimento.  

Não no sentido "reencarnação" da palavra. No sentido de seguimento, de continuidade. E, por que não, de recuperação. 

Uma vida. Uma nova vida. Um ano novo.


PS: no dia seguinte, meu irmão voltou a ligar para saber se o que ele pensava que tinha ouvido - que seria tio - era mesmo o que tinha sido dito. 

"Ká, aquilo que você falou ontem, é verdade?
"Aquilo o quê?"
"Que você tá grávida."
"Sim, é sim".
"Cara, eu preciso mesmo pensar a respeito". 

Para constar, ele se recuperou do choque... depois que eu expliquei que se tratava de um caso de concepção imaculada... 



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