É bom alertar que você deixa de ser uma pessoa.
Você vira uma espécie de entidade.
A grávida.
Ou a gravidinha.
Ainda que você se sinta você mesma, um pouco mais incomodada com o calor do que o normal. E com muita fome. Sono. E vontade de fazer xixi.
Talvez isso não aconteça às grávidas preparadas, assim entendidas aquelas mulheres que estão realizando o sonho de gestar um bebê.
Essas, psicologicamente preparadas para se tornarem mães, ou ao menos, admiradoras da idéia, talvez não tenham esse estranhamento.
Eu tive. Confesso que ainda tenho.
Existe, de fato, uma Karla grávida. Agora, especialmente, que a barriga já é visível, e é mais fácil (para não dizer que o contrário seria impossível) compactuar com o conceito "gestação".
Mas, continua existindo uma Karla que não está grávida, que não será mãe. Que talvez se manifeste muito mais raramente no futuro. Alguém que não tinha essas preocupações.
Que não lia a bula do repelente para checar se é contra indicado para grávidas. Que não se preocupava particularmente em ter uma alimentação saudável ou equilibrada e quando pensava em comer algo gostoso, provavelmente estava se referindo a um hamburguer, e não a qualquer comida cor de laranja, especialmente mamão (essa fruta tão sem graça de antes).
Alguém que ainda cabia confortavelmente na parte de cima tamanho P do seu biquíni.
Uma pessoa que não achava que ficar acordada até meia noite era o máximo da balada.
Essa pessoa ainda existe. Mas, não é mais vista. Não pelo mundo exterior.
O externo, os outros, só vê a grávida. Essa entidade, esse ser que está gerando outro.
Todos os seus atos e vontades passam a ser avaliados dessa premissa. A da grávida. Ou, na verdade, do que se espera de uma.
A gravidez te rouba. Desconfio que muito mais do que o sono e as cervejas. Ela te despersonaliza um pouco. Te transforma nesse ser sagrado, que você sabe bem que não é e talvez na pele de quem você não se sinta confortável.
E por mais que isso te choque ou chateie, é inevitável. Você está grávida.
Você É grávida.
loving it!! os posts estão demais!!! saudade da "karla" e da "entidade".
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