domingo, 30 de março de 2014

Quando você conta que está grávida, logo após os parabéns, as pessoas logo te perguntam "mas, você tá enjoando muito?". 

Enjôos. Aparentemente, o único sintoma gestacional mundialmente conhecido.

Se você não tem, rola quase uma decepção da audiência. Talvez te perguntem se você está mesmo grávida.

Eu não enjoei. Pelo menos não a ponto de virar um sintoma gestacional.

Mas, como todo mundo, fiquei esperando que os enjôos viessem.

Por quê? Sabe-se lá! Eu odeio enjoar, odeio vomitar. Então, não tenho a mínima idéia do porquê fiquei esperando por eles.

Talvez por isso. Por serem sintomas mundialmente reconhecidos como gravídicos. Enfim, um território conhecido. Ajoelhar na frente do vaso sanitário e botar os bofes para fora.

Mas, não.

Eu só botei pra fora o pão-de-queijo de 50 anos que o Fá comprou pra mim no dia do ultrassom no hospital. E meses mais tarde, a vitamina para gestantes que desceu pelo buraco errado.

Enjoei um pouco outras vezes. Mas, nada demais. Tudo pôde ser atribuído a ler e chacoalhar no ônibus ao mesmo tempo.

Eu tive outras coisas. Sobre as quais não se comenta muito...

E, na verdade, esse post é sobre isso.

Sobre nossa ignorância.

Sabemos que podemos engravidar e como isso acontece. Mas, depois que acontece, e aí? O que sabemos sobre isso?

Que vamos enjoar, que os peitos e a barriga vão crescer e que, em algum momento lá pelos 9 meses ou 40 semanas de gestação, o bebê vai precisar sair. O parto. Pois é. Se for normal, vai doer e vamos gritar como bezerras sendo exorcizadas. Se for cesárea, vamos tomar uma droguinha, o médico vai fazer um corte na nossa barriga e tirar o bebê lá de dentro.

Bom, em 9 meses tem que acontecer algo mais do que isso, não?!

Não pode ser só o peito e a barriga crescendo e a gente brincando de poltergeist.. 

Mas o que acontece, então?

Perguntei para minha mãe e outras mães e as respostas que eu obtive foram todas num sentido "ah, a maternidade é linda. Curta sua barriga..."

Ok, pessoal. Eu vou curtir. Estou curtindo. Mas e o resto? Tem alguma coisa além disso que eu deva saber?

Não, fica tranquila. A maternidade é linda. Dá a toda mulher um brilho. 

Um brilho? Até onde eu tô vendo, esse brilho é suor! 

E ninguém vai te dizer isso! 

Mas, a gravidez te faz suar pra caralho! Literalmente. 

sábado, 22 de março de 2014

Quando eu saí da sala de ultrassom em choque por descobrir, confirmar, enfim, por estar grávida, o Fá me esperava na sala.

Ele lia uma revista e não parecia estar preocupado.

Quando eu disse a ele que tinha alguém dentro do meu útero, ele me abraçou e riu e chorou. Ao mesmo tempo.

Depois, ele passou para a fase do choque, como eu.

E alternou essa fase com a do desespero. 

A do medo.

A da preocupação.

A da euforia.

Logo no começo, era possível ouvi-lo murmurando nesses diferentes tons e contextos "eu vou ser pai!".

Ele também protagonizou a cena macho alfa. Acho que foi na esteira rolante que liga a estação Paulista à estação Consolação do Metrô.

"Eu sou foda. Eu sou o macho alfa. Eu fecundei a minha fêmea". 

Juro. Com essas palavras. Com direito a bater no peito e tudo.

Mesmo no auge do seu orgulho viril, no entanto, ele é um homem enfrentando uma realidade diferente e apavorante: a da paternidade.

E paternidade é uma coisa muito mais abstrata que maternidade. 

E homens, em geral, têm problemas com abstratos e subjetivos.

O bebê não está no corpo deles. Nós dizemos "estou grávida", eles nos olham e vêem a mesma pessoa de 3 minutos antes.

Nós reclamamos de enjôos, dores de barriga, nas costas, cansaço, calor, frio, inchaço, fome, vontade de fazer xixi, carência, etc... e, apesar dessas coisas estarem relacionadas, supostamente, ao tal do filho deles, eles não sentem nada disso. Pelo menos não a maioria.

Os meses passam e o bebê cresce, nossa barriga também. A deles, só se for de chope e alimentação ruim. 

O bebê mexe... e eles só vão sentir muito depois. 

A paternidade é abstrata. Até o nascimento do bebê. Ou até imediatamente após.

A maternidade, não. É concreta, concretíssima. Desde o primeiro momento.

Toda vez que ganhamos alguma coisa para o bebê, o Fá faz uma careta. É o bebê ficando concreto.

É mais do que isso. É o medo. O mesmo que nós, futuras mães, temos. O de não dar conta, de não ser suficiente, de falhar. Da responsabilidade.

Ele tem medo de não ser capaz. 

E um certo estranhamento por essa pessoa na qual vem se metamorfoseando a companheira dele. 

Uma barriga de esquistossomose estalando no corpo magro da fêmea dele. O cansaço. A impaciência. A fome. 

O que fazer com essa criatura nova?

Ele faz o que pode: ele ama. Tem paciência. Alimenta. Muitas e várias vezes. Às vezes faz massagem nos pés. Cede o espaço na cama. E os travesseiros. 

Faz que não vê aqueles dias em que ela está obcecada com a maternidade, ou mais especificamente, em descobrir como são as mães, o que elas comem e como elas surgem.

Aguenta as sugestões de nome que irrompem no meio de qualquer conversa. Inclusive sobre o escândalo na Petrobrás.

Ouve os relatos, os mil relatos dos sonhos estranhos. E até comenta.

Tenta entender as conversas sobre parto. Assiste o documentário sobre violência obstétrica que a namorada quer por que quer que ele veja.

Acompanha as informações sobre a evolução da gestação. "Agora, ele tá do tamanho de uma azeitona". "Ei, já tem cabelo". 

Toda a semana, ele tira uma foto da mulher grávida. Para a posteridade. Para que ela se veja, de alguma forma, nessa casa sem espelho, e se reconheça nessa nova pessoa.

Nesse meio tempo, ele se afeiçoa. À barriga. Ao filho que vai dentro dela. Ainda que ele ainda não tenha nome e seja, ainda, muito abstrato.

Ele conversa. Dá conselho. Ou, simplesmente, o acaricia, o beija.

Ele faz, até, uma promessa.

Ele vira pai. Já é. E nem sabe.


sexta-feira, 21 de março de 2014

É bom alertar que você deixa de ser uma pessoa. 

Você vira uma espécie de entidade.

A grávida.

Ou a gravidinha. 

Ainda que você se sinta você mesma, um pouco mais incomodada com o calor do que o normal. E com muita fome. Sono. E vontade de fazer xixi.

Talvez isso não aconteça às grávidas preparadas, assim entendidas aquelas mulheres que estão realizando o sonho de gestar um bebê. 

Essas, psicologicamente preparadas para se tornarem mães, ou ao menos, admiradoras da idéia, talvez não tenham esse estranhamento.

Eu tive. Confesso que ainda tenho.

Existe, de fato, uma Karla grávida. Agora, especialmente, que a barriga já é visível, e é mais fácil (para não dizer que o contrário seria impossível) compactuar com o conceito "gestação". 

Mas, continua existindo uma Karla que não está grávida, que não será mãe. Que talvez se manifeste muito mais raramente no futuro. Alguém que não tinha essas preocupações.

Que não lia a bula do repelente para checar se é contra indicado para grávidas. Que não se preocupava particularmente em ter uma alimentação saudável ou equilibrada e quando pensava em comer algo gostoso, provavelmente estava se referindo a um hamburguer, e não a qualquer comida cor de laranja, especialmente mamão (essa fruta tão sem graça de antes).

Alguém que ainda cabia confortavelmente na parte de cima tamanho P do seu biquíni. 

Uma pessoa que não achava que ficar acordada até meia noite era o máximo da balada.

Essa pessoa ainda existe. Mas, não é mais vista. Não pelo mundo exterior.

O externo, os outros, só vê a grávida. Essa entidade, esse ser que está gerando outro.

Todos os seus atos e vontades passam a ser avaliados dessa premissa. A da grávida. Ou, na verdade, do que se espera de uma.

A gravidez te rouba. Desconfio que muito mais do que o sono e as cervejas. Ela te despersonaliza um pouco. Te transforma nesse ser sagrado, que você sabe bem que não é e talvez na pele de quem você não se sinta confortável.

E por mais que isso te choque ou chateie, é inevitável. Você está grávida.

Você É grávida.


quinta-feira, 20 de março de 2014

Por esses dias, já quase na metade da gravidez, assisti um vídeo (desses do youtube) sobre formas fofinhas e impactantes de contar à família que se está grávida.

Coisas como colocar sapatinhos de bebê em caixas de presentes para as avós; perguntar ao sogro se ele prefere ser chamado de sogrão ou de vovô; dar um cartão de "feliz dia das avós"... e por aí vai.

Não tivemos nenhuma idéia (sim, eu sou contra o acordo ortográfico) do gênero. Mas, como estávamos às vésperas do Ano Novo, resolvemos aguardar até lá para contar a novidade.

Entre o dia da descoberta, digo, confirmação da gravidez (27/12) e o Ano Novo, tínhamos longos 4 dias pela frente. E uma viagem de carro de 14 horas até Florianópolis. Com minha mãe e irmã como passageiras. 

E eu, claro. Grávida e com infecção urinária. 

E o Fá. Pai, ainda sob os primeiros impactos da notícia. Fazendo todas as curvas do caminho a 10 por hora. Tentando sacolejar o mínimo possível. E tendo que parar em todos os postos de gasolina da estrada para a moça aqui fazer xixi.

Queria dizer que foi divertido... não foi. Pelo menos não enjoei. E a infecção urinária serviu como desculpa perfeita para o meu descontrole urinário.

E para a minha abstinência alcóolica. Embora minha irmã tenha duvidado que eu fosse ficar sem beber "até no Ano Novo". 

Para a leseira que me acometeu assim que chegamos em Floripa, a desculpa foi o calor. Minha pressão é normalmente baixa (9X6). Sempre fico meio mole na praia... e com esse calor todo... 

Para o espanto da minha irmã "nossa! Como você tá peituda!", eu murmurei um "ah... eu tô pra menstruar..." e desconversei.

O Fá eventualmente tinha ondas de euforia paternal alcóolica e soltava um "você está carregando meu herdeiro" ou "a mãe do meu filho" ou qualquer coisa do gênero. Porque realmente os bêbados devem ter alguma proteção sagrada, ninguém - pelo menos não sóbrio o suficiente para entender - percebeu nada.

Enfim, o Ano Novo chegou.

Fomos à praia. 

Um pouco antes da meia noite, meu irmão, que ficou em Sampa ligou. Afastei-me da galera para falar com ele. 

Congratulações de praxe... e, enfim, vamos a ela. A notícia.

"Então, se cuida bem esse ano... vou precisar de você para cuidar do bebê. Você vai ser tio!"

Silêncio do outro lado da linha. E então: "tio?! A Ju está grávida?"

Isso resume um pouco a expectativa da família em relação à possibilidade de eu procriar, não? 

"Não. Eu estou grávida."

"Sério?! Sério mesmo?"

"Sim, sério. Estou grávida. Dois meses. Deve nascer perto do seu aniversário".

Silêncio, de novo. E um abrupto: "Vou ser tio? Cara, preciso pensar a respeito". E eu fiquei ouvindo o tu-tu-tu da ligação interrompida.

É. Não fomos os únicos a entrar em choque.

A segunda foi minha sogra. Ela estava bem adoentada na época e tomando remédios fortíssimos. 

Estava meio grogue ao telefone. Respondeu com um "É? Agora você tem que tomar juízo, Fábio". Ficamos na dúvida se era uma recomendação para o ano novo. Ou para o futuro pai.

E, então, só restavam os presentes. Por coincidência, minha irmã, mãe e cunhado estavam reunidos numa espécie de círculo. O Fá e eu nos aproximamos e paramos quietos, entre eles. Minha mãe perguntou o que tinha acontecido.

"Nada. Só vim aqui dizer que estou grávida". 

Acho que eu não tinha bem terminado a frase e minha mãe estava gritando e pulando sobre mim; minha irmã estava chorando e meu cunhado estava tendo uma trip particular com a notícia + o álcool da noite (ele parecia estar se divertindo).

Fiquei na dúvida se abraçava minha mãe, ou amparava minha irmã. Na verdade, fiquei preocupada. Por que ela estava chorando, afinal? Meio soluçando, ela explicou que era de felicidade.

"Eu vou ser tiiiiiiiiiaaaaaa".

De fato, não há nada demais nesse relato. Uma família partilhando uma notícia feliz. Tão emocionante, tocante e um pouco chocante quanto isso.

Mas, essa notícia em si tinha também um outro contexto.

Um contexto de perda e de ganho. O ano novo marcava pouco mais de um ano da morte do meu pai. 

O primeiro ano novo que conseguimos passar mais ou menos inteiros, depois disso. Sem a mágoa e os conflitos próprios que uma perda como essa traz. Sem acusações baseadas na dor.

Para usar as palavras da minha mãe, um renascimento.  

Não no sentido "reencarnação" da palavra. No sentido de seguimento, de continuidade. E, por que não, de recuperação. 

Uma vida. Uma nova vida. Um ano novo.


PS: no dia seguinte, meu irmão voltou a ligar para saber se o que ele pensava que tinha ouvido - que seria tio - era mesmo o que tinha sido dito. 

"Ká, aquilo que você falou ontem, é verdade?
"Aquilo o quê?"
"Que você tá grávida."
"Sim, é sim".
"Cara, eu preciso mesmo pensar a respeito". 

Para constar, ele se recuperou do choque... depois que eu expliquei que se tratava de um caso de concepção imaculada... 



domingo, 9 de março de 2014

Eu sempre fui - e continuo sendo - a favor da descriminalização do aborto e de permitir à mulher escolher se, enfim, ela quer dar luz ao fruto do seu ventre.

E não apenas em casos de estupro, risco à vida da mãe, ou má formação fetal grave.

Em qualquer caso.

Por isso, num momento em que o choque deu uma pausa e nosso cérebro voltou a funcionar o de sempre, eu e o Fá tivemos essa conversa.

Enquanto ele se desesperava, repetindo em vários tons "eu vou ser pai", eu disse simplesmente "ou não, ainda dá tempo".

A resposta dele foi imediata: não. 

Não me surpreendeu nem um pouco. A que não queria filhos no casal era eu.

Depois, ele respirou fundo e me perguntou se eu não queria.

Engoli o sanduíche natural que comia e aproveitei o tempo da mastigação para pensar.

Eu não queria. Fato.

Continuo não querendo? Não sabia responder isso.

Sem saber direito o que sentia, resolvi, como de praxe, usar a razão.

36 anos. Emprego estável. Relacionamento idem. Não sou exatamente uma odiadora de crianças ou coisa parecida. Sim, o mundo é louco. Provavelmente sempre foi. 

Enfim, nenhum motivo real para ter um filho. Mas também nenhum motivo para não tê-lo.

Por fim, a pergunta realmente importante: eu seria capaz de amar essa criança que eu nunca quis?

Olhei pro Fá e pensei que a criança seria um pouco como ele. E como eu. E como todas as pessoas que amamos. Teria pequenas partes de nós e dos nossos.

Sim, eu seria.

"Acho que podemos fazer isso. Ter esse bebê".

Eu respondi no plural, mas foi uma resposta no singular.

Uma decisão minha. De, enfim, ser mãe.
Não, eu não chorei no ultrassom.

Só fiquei chocada.

Eu, que nunca quis filhos, estava grávida.

Meu cérebro estava com problemas para processar a ideia.

Eu precisava falar em voz alta. Contar para alguém.

Por isso, quando chegamos em casa, eu contei para a Ana. 

Santa Ana. Santa Ana Rita.

Ana foi uma espécie de babá de todos nós, lá em casa. Tinha 16 anos quando meus pais a contrataram como doméstica. Limpar a casa e dar uma mão com a criançada.

Eu tinha 6. 

Foi amor à primeira vista.

Era para ela que eu contava minhas aventuras do dia. As desventuras, tudo. 

Ela sabe de tudo da minha vida. Provavelmente, de coisas que eu nem sei.

Foi para ela que eu contei primeiro.

"Ana, você vai ser vó".

Ela me olhou. Um instante em dúvida. E então começou a chorar e a pular e nos abraçou.

Ela ficou feliz. Isso me confortou um pouco. Ela não correr em pânico pelo fato de eu, totalmente inábil para a maternidade, estar prenha. 

Pedi que ela não contasse nada a minha mãe.

A gente contaria no Ano Novo. Ou, sabe deus... 

Era muita coisa para processar. Um bebê. Um filho. Uma pessoa que não só cresceria dentro de mim, como dependeria de mim, e do Fá, por muito tempo ainda.

Alguém com quem você não corta os laços. Alguém que vai ser sempre uma parte sua.

Alguém que vai ser uma espécie de continuação sua, embora totalmente diferente de você. Com outra vida.

Alguém frágil nesse mundo louco.

Alguém que tiraria minhas noites de sono, minhas manhãs até tarde e sabe-se lá o que mais.

De repente, me senti muito nova para ter um filho. 

Quis gritar: "ei, só tenho 36! Não sei de nada". E aí me senti muito velha para ter um filho.

Em nenhum momento me senti mãe. 

Ah, sim. Eu estava mesmo com infecção urinária. 

Ainda estamos em choque com o parabéns do médico da recepção. 

O meu pânico é tamanho que a médica que ouve o meu relato sobre a cólica nem dúvida. Tenta me tranquilizar. Diz que, provavelmente, é só uma infecção urinária, mesmo, mas que vai pedir um ultrassom só para se certificar que o colo do útero está bem fechado.

Enquanto espero para fazer o bendito ultrassom, mais exame de sangue e mais xixi no potinho. 

Finalmente, sou chamada para o ultrassom. 

Agarro na mão do Fá e vamos juntos. O enfermeiro não questiona. Até deixa ele fica na sala de espera reservada aos pacientes.

Ninguém quer deixar uma grávida abandonada. 

Não devemos ter esperado muito. Claro que para mim foi o equivalente a séculos.

Finalmente, uma enfermeira sorridente vem me chamar.

Entro na sala de ultrassom e o primeiro choque: transvaginal (para leigos e para quem nunca fez, ou não tem vagina: a mulher se deita com as pernas separadas e um pouco elevadas - famosa posição frango assado - e o médico introduz no canal vaginal algo parecido com o dedo do ET, aquele que acende. Para garantir a higiene e tal, ele ainda veste uma camisinha nesse troço e aplica um gel na ponta. Sim, amigos, é quase uma penetração).

A enfermeira me explica que é por causa do tempo de gravidez. Como está muito no começo, só a transvaginal é capaz de dar visibilidade ao feto.

O médico entra, prepara o aparelho, pede licença - simmmmm, eles sempre pedem licença - e introduz o ultrassom.

Eu, como sempre nesses exames, fico olhando pro teto... e aí eu o escuto dizer: fique tranquila, seu bebê está bem. 

Meus amigos, minhas amigas, uma coisa que não é confortável - e nem remotamente recomendável de se fazer - é sentar-se com o aparelho de ultrassom transvaginal dentro de você.

Mas, a palavra bebê e contexto dela dentro do meu útero, me fez saltar sobre minhas nádegas e quase gritar "o quê?!"

O médico, possivelmente supondo que era a alegria de saber que estava tudo bem, virou a tela do ultrassom para me mostrar o que ele estava vendo.

E lá estava na tela algo parecido com um girino, com um coração que batia tão forte que eu tinha a impressão de que levantava a sua pele (e talvez o fizesse, mesmo).

"Que coisa louca de meu deus!", foi o que eu disse.

E o médico, todo animado: "não é mesmo? Muito interessante, não é?"

"Muito... muito interessante".

Ele continuou falando alguma coisa sobre o bebê, a gravidez, e sei lá mais o quê. Capitei algumas poucas coisas. 8 semanas e 2 dias... 

Depois de liberada, saí da sala em transe.

O Fá me esperava, sentando, lendo uma revista. 

Eu olhei para ele, apontei pra minha barriga e disse: "tem alguém dentro de mim. Tem uma pessoa aqui dentro".

E caí sentada na cadeira.

Ele me abraçou, meio rindo, meio chorando. Ambos de desespero, eu acho.

Sim, o google estava certo.
Acordamos cedo. Temos uma missão.

Fazer um ultrassom e ver que não há nada dentro do meu útero. 

O google, o exame do xixi no pauzinho, a mensuração de BhCG no sangue estão todos errados! Blé! Vocês não sabem de nada! 

Dia 27 de dezembro, último dia útil do ano para muita gente, eu e o digníssimo saímos por aí à procura de um laboratório que fizesse um ultrassom "para descobrir se estou grávida" de encaixe.

Ahã.

O que tinha disponibilidade na agenda fez uma requisição impensável (para nós, claro): o pedido médico. 

Oi? Como assim? Precisa de pedido médico? Precisa.

Meu médico parou de atender no dia 20. 

"Vamos ter que esperar voltar de viagem".

Olho para ele. Quero saber se está falando sério. Como eu conseguirei sobreviver mais um dia na incerteza?! Não! 

"Vamos pro pronto socorro".

Ele me olha certo de que eu tô doida.

"Estou com essa cólica renal há dias, não estou? Vamos pro pronto socorro. Eles pedirão um ultrassom".

E fomos.

Véspera de ano novo e pronto socorro lotado. 

Sem pensar muito, pego uma senha preferencial. O segurança me olha desconfiado. Digo que estou no começo da gestação. 2 meses.

Enquanto esperamos ser chamados, tenho uma crise ética. Poderia ter pego a senha preferencial? O Fá me acalma. Embora minhas crenças pessoais me digam que não estou grávida, a ciência, por ora, diz o contrário, então, tecnicamente, eu tenho direito à senha preferencial. 

Na triagem, conto minha história triste.

Estou grávida de dois meses. E com uma cólica louca. Dói mais as costas, mas dói o pé da barriga também.

A enfermeira se preocupa. Qual o grau de dor, querida, de 0 a 10?

Oito, respondo, sem querer parecer muito exagerada.

O Fá me olha assustado. Sacudo a cabeça e faço um 4 com a mão... Não, pessoal, não é bonito mentir para profissionais de saúde.

Estamos preenchendo a ficha, quando um médico entra na recepção e pergunta se alguém pode doar sangue. Ele tem dois pacientes transplantados precisando.

Eu posso doar! Quer dizer, grávidas podem?

Ele diz que não e faz um afago no meu cabelo.

"Primeiro filho? Ah, agora vocês vão ver o que é amor de verdade... não que vocês não se amem. Mas, você não pularia do prédio por ele. Mas pularia por seu filho. Parabéns!"

Ficamos estáticos. Alguém nos deu parabéns! Vamos ser pais! 

E essa é a primeira vez que nos ocorre essa possibilidade. 

sábado, 8 de março de 2014

Ah, nada como um dia no trabalho consultando o site do laboratório a cada 10 minutos...

Vai que o resultado sai antes do previsto, não?

Pois não saiu. 

Fui obrigada a voltar para casa na ignorância e aflição.

E a atormentar o Fá a cada dez minutos, querendo dar uma olhada no site, para checar.

Como argumento final, ele lembrou que o Fabito tinha ficado de passar em casa, pra desejar bom ano, pegar o guia de praias do Nordeste e tomar uma cerveja.

Ele quase conseguiu me convencer.

Assim que tirou os olhos de mim, pulei no computador, acessei o site do laboratório e tanãnnnn... lá estava o resultado.

Como um bom exame de laboratório, o resultado era quase uma prova de adivinhação.

BhCG normal (não grávida) de 0 a 2

BhCG >2 < 20 - refazer o teste em 7 dias

BhCG > 20 - grávida.

O meu resultado?

133492

Sim. Cento e trinta e três mil e quatrocentos e noventa e dois! 

"Você está grávida"

"Não, não estou. Esse resultado está errado! Tem uma vírgula aí. É 1,33492!"

"Amor..."

"Não tem como! Não estou!"

Recorremos ao Google. Digito BhCG 133492. Ele responde: Grávida entre 6 e 8 semanas.

Olhamos um pro outro. 

Não abrimos a boca, mas eu sei que ele está fazendo o mesmo que eu. Uma conta mental. Até chegar àquela noite em que confiamos na tabelinha.

Mais ou menos 8 semanas...

Eu choraria, se soubesse como.

Não dizemos nada, porque o Fabito chega.

Faz meses que não nos vemos. Eu só consigo dizer um oi xoxíssimo para o meu melhor amigo.

Contamos que saiu o financiamento do imóvel. Não há muito ânimo na nossa voz.

Ainda estamos lidando com o choque.

Quando ele vai à cozinha pegar uma cerveja, sussurro para o Fá que quero contar. Ele sacode a cabeça. Não deixa.

Os meninos passam a noite conversando sobre praias do Nordeste.

E eu pensando que 8 semanas são 2 meses...

Quando o Fabito vai embora, eu olho pro Fá e digo:

"Não estou grávida. Tem alguma coisa de errado comigo. A gente faz um ultrassom amanhã e acaba com essa dúvida".


Meu tio Devaldo olhou pra mim e disse "xi, daí não sai nada não".

Ele estava se referindo à minha capacidade de procriar.

Foi com esse pensamento que o "amanhã" chegou e eu fiz xixi no potinho, de novo.

Dessa vez, resolvi acompanhar o procedimento.

Mal mergulhei o palitinho no primeiro xixi matinal e ele acendeu em rosa. 

Dois segundos depois, lá estavam os dois pauzinhos gritando GRÁVIDA na mesma intensidade, para não deixar dúvidas.

Mas, ainda faltavam 4 minutos e 58 segundos para o resultado do exame ser seguro.

E eu passei todo esse tempo rezando um único mantra, os olhos fixos nos pauzinhos: "JUNTA, JUNTA, JUNTA".

Nunca fui muito boa em orações. Ou em mantras.

Do lado de fora, o Fá aguardava. 

Saí do banheiro segurando o palitinho mostrando os dois pauzinhos rosas com cara de quem acabou de presenciar um massacre de filhotes fofinhos.

"Tá dizendo que eu tô grávida!"

Ele tirou o palitinho da minha mão, virou, revirou. Pegou a caixinha do exame para se certificar das instruções e resultados.

Tirando isso, ele não parecia nem um pouco incomodado.

"Bom, amor, então você está grávida". Assim, como quem diz "então, seu cabelo é castanho".

"Não tô, não. Ó, diz aí na caixinha que infecção urinária pode alterar o resultado".

Ele olha pra mim. Dúvida (da minha sanidade mental, talvez), esperança, confusão. E aí, você tá ou não tá, ele pergunta.

"Não estou. Quer saber? Vou fazer um BhCG no laboratório aqui embaixo e acabar com isso".

"Um o quê?". Homens! Explico do que se trata. É um hormônio que diz que você está grávida.

Ele tem reunião cedo e não pode ir comigo. Sem drama. Não será a primeira, nem a última vez na história da humanidade que uma mulher vai sozinha tentar saber se está grávida.

Dia 26 de dezembro. O laboratório está às moscas, às oito e meia da manhã. Peço o exame, pago. 

Dois minutos depois alguém me chama. 

Prende um elástico no meu braço, num procedimento que sempre me lembra aplicação de drogas injetáveis, embora eu nunca as tenha usado. Geração Hollywood. Filmes demais.

"Você vai sentir uma picadinha de leve".

Normalmente, depois dessa frase, eu viro o rosto. A agulha entrando na minha pele sempre me deu aflição. 

Mas, dessa vez, fico olhando atentamente. Quero ter certeza que tudo foi feito muito corretamente.

O sangue, bem mais bordô do que vermelho, enche o pote. 

Enquanto ela etiqueta com o meu nome, eu quero saber se há possibilidade do resultado - especialmente o de gravidez - estar errado.

Ela olha para mim como se eu tivesse acabado de me revelar um ET.

"Moça, se der positivo e você não estiver grávida é porque tem alguma coisa muito errada com você".

Eu saio dali pensando se esse "muito errado" seria "muito ruim" também. Estou quase disposta a descobrir.

Mas, preciso esperar 12 horas para isso.