domingo, 8 de junho de 2014

Você vai suar, vai ter diarréia, depois vai constipar. Sua pressão vai despencar. Suas crises de enxaqueca vão piorar. Ou você vai enjoar, a pressão vai subir, vai ter dor nas costas, falta de ar, varizes, hemorróidas.

A lista de "contra-indicações" é grande.

Vão te despersonalizar. Você vai virar um invólucro, uma embalagem. Um ser sagrado.

Gente estranha vai se sentir no direito de te dizer o que comer. Ou, sem a menor cerimônia ou pedido de licença, vão alisar sua barriga na fila da pipoca.

Você vai se sentir sozinha, mesmo que não esteja. E vai se sentir invadida, também.

Vai acontecer tudo isso e muito mais. Ou não. Cada gravidez é diferente. Porque cada mulher é diferente. Assim como cada feto e futura criança.

O que não muda e acontece a todas nós, te adianto: cérebro de mãe entorta.

Mais cedo, ou mais tarde, teu cérebro entortará.

O que eu quero dizer com isso?

Que você pode ser a pessoa mais racional do mundo. E aí você engravida. E vira mãe, ou meio que vira, ou está virando.


Raciocinar continua fazendo todo o sentido. Mas, o sentido, o sentido em si, esse é que importa.

Você vira instinto. Mesmo aquelas que, como eu, sempre foram ótimas em ignorar o próprio, porque afinal, instinto não é raciocínio.

Mas... ah, mãe. Mãe é diferente. Funciona em outra vibração. Em outra dimensão, talvez.

Você vai sentir todos os cheiros, mesmo numa cidade que cheira tudo a fumaça como São Paulo. E vai sentir no ar se virá chuva, raio, se tem perigo.

Vai enxergar o que não via antes. Você não precisa de visão focal, amiga. Precisa ver o que vem das sombras, o que vem comendo pelos cantos. Então, tua visão periférica aumenta.

Você vai aprender a se resguardar. Não adianta gastar toda energia agora. Você vai precisar dela, depois. Para parir. Para correr atrás da cria.

Você vai identificar toda criança como cria. Cria tua, ainda que emprestada por três segundos. Quem deixou essa criança solta aqui? Ah, lá está o pai... ufa, a musculatura relaxa.

Vai acordar à noite, com qualquer ruído, mudança de temperatura. Vai levantar, fazer a ronda. Voltar para cama só quando tudo estiver bem.

Vai se irritar com as coisas ainda por fazer, ficar ansiosa, brigar. Vai querer arrumar o ninho. Tê-lo pronto.

Vai ouvir com atenção, com o dobro de atenção, ou o triplo, o que dizem as avós, as mães. Porque elas sabem o que você precisa aprender.

Vai ver tua mãe de outra forma. Vai entender muita coisa. Mesmo que seja para continuar discordando.

Vai saber, mesmo sem nenhuma ameaça ou perigo, que você morreria. Vai entender todas as mães e os pais que morrem por seus filhos. 

E, estranhamente, vai saber que isso é instintivo. Não é nada pensado. Não é um ato altruísta. É o que chamamos de amor. Mas é, antes de tudo, algo mais básico, mais primitivo.

Vai se identificar, finalmente, como outro animal. Nada superior. Nada de topo da cadeia alimentar. Nada de sapiens. 

Apenas uma fêmea, prenha, a natureza te preparando para parir, perpetuar a espécie, e fazê-la sobreviver.

E não vai se importar. Vai saber que é assim. Que tem que ser assim. Que é belo que seja assim.

Afinal, é isso o que você é, fêmea. E prenha. 


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