Você tem filhos?
A pergunta está no papel, olhando para mim. Num questionário qualquer.
Eu tenho filhos?
Posso responder que tenho 6/9 (ou seja, 2/3) de um?
Ou dá para arredondar? Tipo, contar com o ovo no canal vaginal da galinha?
Só é filho depois que nasce?
Ou já é filho desde sempre? Mesmo quando você nem sabe que tá grávida, ainda? Ou quando tem meses de gestação pela frente?
Eu não sei responder essa pergunta. Daí, viro pra moça e questiono:
"Moça, eu tenho filhos? Olha, eu tô grávida. Posso responder que sim?"
Ela fica me olhando. Talvez nunca tenha pensado nisso antes.
O Fá me diz: "não, amor, você ainda não tem filhos".
"Mas, ao mesmo tempo, eu tenho. Meio que tenho, não é?"
Lembro do conto do Malba Tahan sobre o desafio que um rei muito rico lançou. Aquele que fizesse uma afirmação que não fosse nem mentira e nem verdade, ficaria muito rico, casaria com a linda da filha dele (sempre tem uma filha linda de um rei rico nessas histórias, pronta para casar com quem papai mandar) e seria feliz para sempre.
Quem contasse só uma mentira, ou só uma verdade, ficaria sete anos preso no palácio da mentira (todo em mármore negro), ou no palácio da verdade (todo em mármore branco), conforme o caso.
Eu ganharia, agora, penso. Bastaria dizer: "eu tenho um filho" ou "eu não tenho um filho". Qualquer das duas me serviria.
A resposta que o vencedor da história dá ao rei é muito mais simples, no fim das contas.
Aos olhos da lei, eu não tenho um filho. Pessoas só existem para o Direito Brasileiro DEPOIS que elas nascem.
Aos olhos da ciência, minha gestação já está num ponto (seis meses) que sim, eu tenho um filho. O ser humano que estou gerando já poderia sobreviver fora do útero (com alguma ajuda médica, muito possivelmente). Ele é um ser viável. Logo, ele existe.
Aos meus olhos, aos do pai, dos avós, dos tios, tios-avós, primos, amigos, etc., ele já existe. Desde que tomaram conhecimento da sua existência. E, como se isso fosse possível, a cada dia ele existe mais.
Primeiro, ele era só uma coisinha inesperada que tinha nos acontecido. Um girininho. Depois, um pequeno híbrido alien-humano. Com dedos, mãos, pés, tudo que nós, aqui do lado de fora, temos. Uma coisinha realmente incrível. Era o bebê. Depois, esse bebê foi criando contorno mais nítidos. Virou um menino. O menino.
Esse menino que ainda nem tinha nome, mas para quem já se tinha tantos projetos, sobre quem se falava tanto, por quem se torce tanto. Já tem roupas, brinquedos. Já se discutiu até seu time de futebol...
Aí, o menino ganhou um nome. Os bons-dias e as conversas com a barriga passaram a parecer mais normais. Existe um garoto aqui, determinado, com nome próprio.
Papai já pensa na poupança para a faculdade. Harvard, MIT, a que ele quiser... E quando chega em casa do trabalho, ele pergunta do meu dia e do dia do filho. Conversa com ele, com a boca colada à barriga e perdeu a vergonha de beijá-la em público. Não é mais uma barriga. É o menino.
Ele já dança e já tem preferências musicais. Adora Vinícius e se tiver tocando "A Arca de Noé" ele fica acordado até tarde. Que se pode fazer?
A gente aprendeu a senti-lo e quando o apertamos, ele responde com um chute. E prefere que eu deite de barriga pra cima, ou chuta e chuta até que eu me vire. Adora ficar da cabeça para baixo e eu passo o dia a sentir seu pezinho roçando minhas costelas, ou chutando meu estômago.
E eu? Eu faço uma pequena prece diária a quem quer que esteja ouvindo, pedindo que ele nasça saudável e que seja bom. O imagino correndo pela casa, atrás dos gatos. Querendo ser astronauta, ou pintor. Torcendo para que queira viajar pelo mundo.
Às vezes, eu sonho com ele. Tem diferentes idades e é sempre diferente. Loirinho, galego como o pai. Ruivo, como a avó. Parecendo um indiozinho como a tia que sumiu. Ele nunca se parece comigo. Mas, eu sempre sei quem ele é e que ele é meu.
Meu filho.
Então, moça, como é que eu respondo isso? Eu tenho ou não tenho filhos?
Feliz dia das mães.
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